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Dor intensa do lado esquerdo do baixo ventre pode ser diverticulite

Dor intensa do lado esquerdo do baixo ventre pode ser diverticulite

Em 1985, Tancredo Neves, primeiro presidente civil eleito após anos de ditadura militar, foi impedido de tomar posse em razão de intensas dores abdominais. Anos depois, sua esposa, Risoleta Neves, apresentaria os mesmos sintomas. Ambos foram acometidos por idêntica enfermidade, a diverticulite —uma inflamação ou infecção de um ou mais divertículos.

Para entender a diverticulite, antes é preciso saber que ela é uma doença que decorre de uma deformidade anatômica (provavelmente degenerativa) que leva à formação de pequenas bolsas na parede do intestino grosso chamadas de divertículos. A presença destes é definida genericamente pelos médicos como diverticulose.

Até o momento não se sabe porque isso acontece, mas há indícios de que hereditariedade e motilidade (movimento) intestinal, como a constipação, estejam relacionadas. Estima-se que 60% das pessoas com mais de 60 anos têm diverticulose, e que de 10% a 25% delas poderão ter diverticulite. A doença acomete ambos os sexos igualmente, mas é mais frequente entre homens mais jovens que 50 anos, e mulheres entre os 50 e 70 anos. Após a sétima década de vida, o grupo feminino é o mais propenso ao problema.

Por que os divertículos inflamam?

A mais atual literatura médica sobre a diverticulite sugere uma relação entre processos inflamatórios crônicos relacionados à dieta, alteração da flora bacteriana e genética. Este último fator prevalece em 40%-50% dos casos.

Os mecanismos da enfermidade ainda são pouco compreendidos, mas o que se sabe, até o momento, é que a causa da diverticulite está associada aos seguintes fatores:

  • Baixo consumo de fibras alimentares;
  • Alto consumo de gorduras e carne vermelha;
  • Baixos níveis de vitamina D (ainda não há um consenso sobre este item. Consulte seu médico sobre a possível influência dessa carência vitamínica no seu caso);
  • Obesidade;Tabagismo;
  • Sedentarismo;
  • Constipação;
  • Exposição a medicamentos como anti-inflamatórios.

Quem precisa ficar atento?

José Joaquim Ribeiro da Rocha, docente da Divisão de Coloproctologia do Departamento de Cirurgia e Anatomia do Hospital das Clínicas da FMRP-USP esclarece que a diverticulite é “considerada uma doença degenerativa na parede do intestino e, por isso, é mais comum entre adultos maduros. Porém há casos em indivíduos de até 30 anos ou menos”.

Segundo o especialista, antecedentes familiares estão envolvidos, e é essa a razão por que é importante conhecer o histórico de saúde de seus parentes. A medida pode ser útil para adotar práticas preventivas.

Saiba como reconhecer os sintomas

A maioria das pessoas é assintomática, ou seja, não reconhece em si nenhuma queixa da doença.

Quando ela se manifesta, os médicos classificam os pacientes em dois grupos diferentes, que apresentarão os sinais e sintomas a seguir, de acordo com a sua classe:

Indivíduos com doença diverticular sintomática não-complicada

  • Dor (cólica) abdominal crônica e recorrente do lado esquerdo inferior –em pessoas de origem oriental, a dor costuma ser do lado direito;
  • Presença de divertículos;
  • Ausência de sintomas inflamatórios agudos como febre ou sangramento;
  • Ausência de inflamação ou inflamação moderada;
  • Sintomas menos vigorosos e de evolução benigna.

Indivíduos com diverticulite aguda

  • Febre; Perda de apetite e vômitos;
  • Dor (cólica) prolongada no abdome do lado esquerdo inferior –em pessoas de origem oriental, a dor costuma ser do lado direito;
  • Exames de sangue indicando alteração das defesas do corpo e presença de inflamação (Proteína C Reativa – PCR);
  • Massa abdominal;
  • Alteração do hábito intestinal (constipação ou diarreia moderada com ou sem muco e sangue nas fezes);
  • Gases (distensão abdominal);
  • Sintomas urinários, caso a bexiga esteja acometida.

Quando é hora de procurar ajuda médica?

Ao observar este sintoma, procure orientação médica o mais rápido possível.

Uma crise pode revelar casos mais graves que poderão ser confundidos com outras doenças, especialmente se você tiver idade superior a 50 anos. Pode ser até que a solução seja cirúrgica, o que por si, indica a necessidade de agir rapidamente.

O coloproctologista, o gastroenterologista ou o cirurgião do aparelho digestivo são os especialistas mais indicados para examiná-lo.

Como é feito o diagnóstico?

Ele pode basear-se apenas na história do paciente e no exame físico, o que inclui palpação do abdome.

Apesar disso, para confirmar a suspeita de diverticulite, os exames complementares geralmente solicitados são os de imagem não invasivos, como a ecografia e a tomografia computadorizada (nos casos agudos).

A colonoscopia só pode ser feita quando a inflamação for controlada. A ideia é avaliar os divertículos e investigar a presença de pólipos, tumor ou colite. Este exame também é útil para pacientes que apresentem pouco ou nenhum sintoma.

Quais são as possíveis complicações?

Mais raras, as complicações da diverticulite aguda são caracterizadas pela presença dos seguintes eventos:

  • Abcesso abdominal;
  • Peritonite;
  • Perfuração;
  • Fístula (extravasamento do abcesso para outros órgãos como bexiga ou vagina –o ar e as fezes podem sair pela uretra ou vagina);
  • Estenose (estreitamento do intestino que leva à fibrose e obstrução intestinal).

A doença diverticular pode levar a sangramento —o que se manifesta, na maioria das vezes, de forma aguda e intensa, e é mais comum entre pessoas que fazem uso contínuo de medicamentos anti-inflamatórios, entre eles a aspirina.

Embora esse tipo de medicamento tenha o potencial de elevar o risco para a diverticulite e sangramentos diverticulares, o seu médico deverá avaliar a relação de risco/benefício de descontinuar o uso da aspirina, por exemplo, que é muito utilizada na prevenção de eventos cardiovasculares.

Como é feito o tratamento?

Ele dependerá da intensidade dos sintomas e complicações observadas pelo médico.

Quando ela é branda, na maioria das vezes, a estratégia terapêutica será conservadora, ou seja, você receberá orientações sobre dieta e atividade física. Além disso, podem ser indicadas medicações específicas. Considerado bastante efetivo, esse tratamento apresenta baixas taxas de recaídas.

“Para alguns pacientes, tomar o antibiótico certo, pelo tempo certo, pode ser o suficiente. Na vida real, após um quadro de diverticulite aguda não-complicada, 70% dos pacientes nunca mais terão sintomas”, afirma Sergio Alexandre Liblik, gastroenterologista e professor de Gastroenterologia Clínica da PUCPR.

Quando a diverticulite dura no tempo e, portanto, é crônica, além de mudanças na dieta, aumento dos exercícios e perda de peso, utilizam-se suplementos de fibras para serem tomados como remédios. A suspensão de medicamentos como anti-inflamatórios também ajudam no controle da doença.

O médico ainda tem à sua disposição medicamentos específicos como os derivados 5-ASA, conhecidos como mesalazina, e probióticos. Juntos, eles teriam o poder de reduzir a inflamação, prevenir recaídas e afastar complicações. Essa última prática ainda é considerada controversa pelos especialistas. Por isso, fale com seu médico para saber se ela poderia ser útil no seu caso.

Quando a cirurgia é necessária?

Ela é sempre considerada uma segunda opção para os casos não complicados, mas que não apresentam melhora, mesmo após as intervenções médicas.

Quanto aos pacientes crônicos, outros dados ajudarão o médico a decidir pela melhor conduta a ser seguida. Saiba quais são eles:

  • Presença de má resposta à reposição de fibras;
  • Idade do paciente (entre os muito jovens, os quadros costumam ser mais graves);
  • Número de crises (mais de quatro, mesmo após tratamento adequado);
  • Presença de fístulas ou estenose.

Em todas essas hipóteses, a cirurgia será denominada eletiva “e poderá até levar ao desaparecimento completo dos sintomas. Isso porque fazemos a remoção da parte do intestino com divertículos (ressecção)”, explica Carlos Walter Sobrado, professor de gastrocirurgia do HCFMUSP e membro da FBG. Embora este seja o procedimento mais comum nos casos de diverticulite, “isso não significa que outros divertículos não aparecerão no futuro”, completa o médico.

Já as cirurgias de emergência decorrem de complicações como a peritonite (inflamação da membrana que recobre o abdome), ou perfuração de um abcesso, fístula ou obstrução do intestino grosso.

O que mudar na dieta

A atenção com a dieta beneficia a todos, indistintamente. Para quem tem divertículos e não apresenta complicações, bem como para aqueles que já sabem que têm a doença, uma alimentação rica em fibras e líquidos, associada à prática de atividade física reduz os riscos associados.

Entre as vantagens dessas estratégias, destaca-se a mudança no microambiente intestinal. As pesquisas mais recentes revelam uma interação entre a flora intestinal, inflamações e o sistema de defesa do seu corpo. Ao mudar sua dieta, você estará contribuindo para a melhora desses mecanismos ao longo do tempo.

Dito isso, durante uma crise inflamatória do intestino grosso, a alimentação deve ser o mais leve possível e fracionada.

A depender de cada quadro, pode até ser que o médico entenda que seja necessário estimular o intestino por meio de laxantes não tóxicos para aliviar os sintomas. Por outro lado, em alguns casos, a dieta poderá ser suspensa —seja pela gravidade dos sintomas, seja pela necessidade de uma intervenção cirúrgica, o que requererá jejum.

De modo geral, durante uma crise aguda ou mesmo para aliviar sintomas siga esses conselhos médicos:

  • Evite ou restrinja o consumo de gorduras e proteína animal;
  • Controle o consumo de fibras;
  • Evite bebidas alcoólicas e condimentos.

Posso comer sementes, nozes e pipoca?

Sim! Os especialistas são unânimes: a restrição do consumo desses alimentos é um mito. Nozes, sementes, e pipoca não estão associadas ao aumento do risco para diverticulose, diverticulite ou sangramento diverticular.

Por outro lado, sementes grandes —quando consumidas em excesso— podem entupir o orifício de um divertículo e acarretar a inflamação. Para evitar que isso aconteça, capriche no consumo de fibras, garantindo que elas sejam completamente digeridas. Tenha em mente que o benefício de ter uma dieta rica e variada é maior que o risco de ter diverticulite.

Apesas dessas considerações, cabe uma advertência: espinhas grandes de peixe e ossos de aves podem, de fato, causar inflamação e até perfurar os divertículos. Fique atento ao ingerir peixes e frango, especialmente o frito, à passarinho.

Dá para prevenir?

A diverticulite é considerada uma condição que decorre do processo degenerativo natural da parede intestinal, que também é influenciada por um componente genético. Isso significa que, mesmo que se adotem as medidas preventivas para a boa saúde local, ela poderá aparecer.

Apesar disso, você pode colaborar para retardar tal manifestação. Adote as seguintes práticas, em qualquer faixa etária:

  • Tenha uma dieta variada e rica em fibras integrais, solúveis e insolúveis. Você deve incluir no seu cardápio frutas, vegetais e grãos;
  • Mantenha-se hidratado –a ideia é consumir 35 ml por quilo de peso, ou no mínimo 1 litro e ½ ao dia;
  • Combata o sedentarismo, investindo em atividade física diária por, ao menos, 30 minutos;
  • Estabeleça um ritmo diário para o funcionamento intestinal;
  • Atenda ao estímulo evacuatório;
  • Adote o uso de medicamentos laxativos e probióticos sob orientação médica, somente quando o consumo correto de fibras não garantem efetivo funcionamento intestinal;
  • Fale com seu médico se o uso de probióticos poderiam ser benéficos no seu caso.

Fontes: Carlos Walter Sobrado, professor de gastrocirurgia do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e membro titular da FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia); José Joaquim Ribeiro da Rocha, docente da divisão de coloproctologia do Departamento de Cirurgia e Anatomia do Hospital das Clínicas da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) e médico responsável técnico pela Proctogastroclínica de Ribeirão Preto; Sergio Alexandre Liblik, gastroenterologista e professor de gastroenterologia clínica da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). Revisão técnica: Carlos Walter Sobrado e Sérgio Alexandre Liblik.

Referências: Araújo SEA., Oliveira Jr. O., Moreira JPT., Habr-Gama A., Furtado JJD., Cerski CTS., Kliemann LM., Caserta NMG. Diverticulite: Diagnóstico e tratamento Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina. 2008; Ministério da Saúde; Neil Stollman, Walter Smalley, Ikuo Hirano: AGA Institute Clinical Guidelines Committee. Guideline on the Management of Acute Diverticulitis. American Gastroenterological Association Institute. 2015; Stephanie Carr; Alfonso L. Velasco. Colon diverticulitis. StatPearls. NCBI. 2019; Catherine D. Linzay; Sudha Pandit. Acute Diverticulitis. StatPearls. NCBI. 2019; Lillias H. Maguire, Mingyang Song, Lisa E. Strate, Edward L. Giovannucci, Andrew T. Chan. Higher Serum Levels of Vitamin D Are Associated With a reduced Risk of Diverticulitis. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2013.

Por Cristina Almeida
Blog VivaBem / UOL

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